6 de março de 2011

Agropecuária no clima do Carnaval



A Mocidade Independente de Padre Miguel faz os últimos preparativos para homenagear no sambódromo a agropecuária e os produtores rurais brasileiros no Carnaval 2011. A agremiação desfila na próxima segunda-feira (7/3) com o enredo “Parábola dos Divinos Semeadores”, que vai contar neste Carnaval a história e a importância do setor ao longo dos séculos A iniciativa conta com o apoio da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Cutrale e outras empresas do agronegócio. “Estamos preparados e com grandes expectativas em relação ao desfile, como há muito tempo não tínhamos, e devemos isso aos agricultores e pecuaristas”, afirma o presidente da escola, Paulo Viana.

No barracão, onde é feito o trabalho artístico da escola, está praticamente finalizado. As alegorias, tripés, adereços e as fantasias estão prontos, depois de meses de dedicação. “Faltam pequenos ajustes, normais na véspera do Carnaval. Mas o que se comenta na cidade é que somos fortes candidatos ao título”, completa o vice-presidente da agremiação, Beto Monteiro. Em 2011, a agremiação vai levar para a Marquês de Sapucaí 3,8 mil componentes, divididos em 41 alas, oito carros alegóricos e três tripés. Durante o período de preparação, o Canal do Produtor acompanhou um pouco da rotina da Mocidade Independente, que busca seu sexto campeonato no Grupo Especial das Escolas de Samba. A escola ganhou os campeonatos de 1979, 1985, 1990, 1991 e 1996.

A visita começou pelo próprio barracão, onde a equipe do Canal do Produtor foi recebida pelo diretor do local, Carlos Santana, conhecido na comunidade de Padre Miguel como Seu Santana, 59 anos, 40 deles dedicados à Mocidade Independente. Na escola, ele foi passista, compositor, e há vários anos ele é responsável por tudo o que acontece no local. “Alguém tem que arrumar a casa”, brinca ele. Além da paixão pela Estrela Guia, como a escola também é chamada, ele revela que uma de suas maiores conquistas dentro da escola foi ter transmitido esse sentimento a outras gerações. “Todos na minha família desfilam na Mocidade”, conta.

Com extremo bom humor, ele fez questão de percorrer os quatro andares do barracão com a equipe do Canal do Produtor, sala por sala, e apresentar cada funcionário do lugar. Em todos os setores, o envolvimento dos funcionários do barracão, que se dedicam integralmente para o sucesso do desfile, ficou nítido. Ao mesmo tempo em que trabalhavam, cantarolavam o refrão, mostrando total intimidade com o samba da escola. No final do dia, a comemoração do trabalho bem sucedido. “Tá ficando bonito”, dizia Anderson Batista, após terminar a confecção de um adereço. Se depender do entusiasmo do barracão, não faltará empolgação na avenida.

O apoio técnico também é fundamental para o sucesso de uma escola. Funções como a de soldar, montar e desmontar os carros alegóricos, por exemplo, não são fáceis. Um dos responsáveis por essa tarefa é o ferreiro Alan Duque. Segundo ele, é uma rotina puxada, mas prazerosa. “É cansativo, mas é um vício. Quando acaba, você fica louco para dormir, mas no outro dia você quer que comece logo tudo de novo”, afirma. Outro exemplo de dedicação é o pintor de arte Mário Chileno, ou simplesmente Chileno, uma referência à sua nacionalidade. Há três anos no Brasil, ele se sente totalmente adaptado ao clima tropical do Rio de Janeiro e, principalmente, à rotina do Carnaval. “Trabalhei em outras escolas, mas aqui na Mocidade me sinto em casa. É cansativo, mas compensador quando você vê que seu trabalho deu resultado”, revela.

No quarto andar do barracão, mais um aperitivo do que a Mocidade Independente mostrará na avenida. Lá estão guardadas algumas peças dos carros alegóricos. De um lado, espigas de milho e outros produtos que vão simbolizar os alimentos símbolos de fartura. Mais adiante, está a cabeça de um boi, que vai reverenciar a Festa do Boi de Parintins (AM), um dos eventos mais tradicionais da região Norte do Brasil. Este mesmo boi será lembrado em uma das fantasias da escola, elaboradas por uma dos componentes mais antigos da escola, Jorge Rodrigues Moreira, o Jorge Palhinha, 60 anos, 45 de escola, responsável por fazer as carcaças de madeira dos bois que enfeitarão a roupa de uma das alas. “Tenho experiência em fazer móveis com madeira e isso sempre me ajudou aqui na escola”, revela.

Da sua sala, no terceiro andar do barracão, o carnavalesco da Mocidade Independente, Cid Carvalho, fiscaliza todo o trabalho de confecção das fantasias e elaboração dos carros alegóricos. Afinal, tudo deve estar em sintonia com o enredo “Parábola dos Divinos Semeadores”, idéia que ele já tinha há algum tempo e agora põe em prática. Os carnavalescos são os cérebros das escolas de samba. São eles que idealizam tudo o que será mostrado na avenida. “O mundo vai conhecer a força da agricultura. Vamos passar por várias épocas, reverenciando a África antiga, os deuses da agricultura, Ísis, Baco, Saturno, Dionísio, as festas mais tradicionais no Brasil, e tudo aquilo que foi feito para celebrar as grandes colheitas, porque o Carnaval se origina a partir dessas comemorações na idade antiga”, explica.

“Samba na boca do povo”

Além do trabalho artístico feito no barracão, a parte técnica também é fundamental para o desfile. Conta pontos preciosos na avaliação dos jurados e pode fazer a diferença no dia da apuração do resultado, quando se conhece a campeã do Carnaval. Para que tudo ocorra dentro do previsto, as escolas realizam ensaios técnicos para aprimorar quesitos como bateria, harmonia, evolução, mestre-sala e porta bandeira e comissão de frente, com a participação da comunidade, dos intérpretes, de alguns destaques da escola, ou seja, o ensaio acaba virando uma simulação do desfile. “Esse entrosamento entre as alas e os componentes é fundamental para um desfile tecnicamente perfeito”, ressalta o diretor de Carnaval da Mocidade Independente, Ricardo Simpatia. “Temos um excelente samba, mas há vários outros critérios que fazem o Carnaval de uma campeã”, ressalta o presidente Paulo Viana.

O Canal do Produtor acompanhou um desses ensaios na quadra da agremiação, em Padre Miguel, zona oeste do Rio de Janeiro, e observou que o samba está “na boca do povo”, como gostam de dizer os moradores da comunidade. “É um samba de fácil comunicação e compreensão do público e tem tudo para sacudir a avenida”, assegura Rixxa, um dos intérpretes oficiais da Mocidade. “Está todo mundo sabendo”, afirma Tia Nilda, coordenadora da ala das baianas e uma das integrantes mais antigas da agremiação. De fato, outra constatação é que o samba enredo é um dos mais elogiados do Grupo Especial do Rio de Janeiro, a elite do Carnaval carioca. Para os antigos figurões da escola, é uma dos melhores sambas em toda a história da agremiação. “Sou otimista, mas também sou sincero e acho que com esse samba a Mocidade vai para as cabeças”, afirma Ivo Lavadeira, um dos fundadores da Mocidade.

Esforço prazeroso

Apesar do espetáculo que o Carnaval proporciona, desfilar exige sacrifícios. Para os passistas, por exemplo, recomenda-se alimentação balanceada e muito exercício para atravessar a avenida sem problemas. “Precisamos malhar, beber muito líquido e ter ziriguidum (molejo)”, comenta Paulina Reis, uma das 60 dançarinas da escola, dando a receita do sucesso para o desfile. Contudo, afirma ela, todo esforço é válido para representar a Mocidade Independente. Quem também não poupa esforços é Marcos Lerroy, que há 15 anos sai como destaque, com fantasias pesadas sobre o corpo. Para 2011, sua vestimenta, carregada de plumas e penas, tem 50 quilos. Entretanto, o peso e o calor do verão carioca são esquecidos na hora da folia, mas os detalhes de sua fantasia exigem que ele se arrume com certa antecedência para evitar contratempos. “Já cheguei ao sambódromo às duas da tarde para desfilar às quatro da manhã, mas o reconhecimento das pessoas compensa tudo”, revela.

Marcos Lerroy, destaque da Mocidade, ao lado de sua fantasia

Samba-Enredo – “Parábola dos Divinos Semeadores”

Uma luz no céu brilhou, liberdade!
Meu coração venceu o medo
O que era gelo se tornou felicidade
A esperança se espalhando pelo chão
A natureza tem mistérios e magias
Rituais, feitiçarias, deuses a me abençoar
Levado pela luz da Estrela Guia
Eu vou por onde a semente germinar
O que eu plantei, o mundo colheu
Um milagre aconteceu
A vida celebrou um ideal
E a fartura se transforma em festival
Festa de Ísis, a farra do vinho
Em Roma a semente foi brotar
Mudaram meu papel, oh Padre Miguel!
Hoje ninguém vai me censurar
O baile da máscara negra
Até a nobreza teve que engolir
Meu Brasil, de Norte a Sul sou manifestação
Aonde vou arrasto a multidão
De cada cem só não vem um
Vou voltar, um dia ao espaço sideral
E reviver o meu ziriguidum, em alto astral
Tá todo mundo aí??? Levanta a mão
Quem é filho desse chão
Chegou a Mocidade fazendo a alegria do povo
Meu coração vai disparar de novo

Desfile da Mocidade Independente
Data – 07 de março de 2011
Horário – entre 23h10 e 23h44

Fonte: Assessoria de Comunicação CNA