10 de setembro de 2008

Brasil poderá suprir demanda mundial por alimentos



Melhorar a infra-estrutura e a logística, ampliar investimentos privados no setor portuário, além da eliminar os impostos cobrados sobre insumos importados são algumas das medidas defendidas pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em audiência pública ontem (9/9), no Senado, para aumentar a competitividade da produção de alimentos no País e assegurar a oferta no mercado internacional, evitando a alta desenfreada de preços. Segundo o assessor técnico da entidade, Marcelo Martins, as ações de Governo deverão priorizar soluções para os gargalos que impedem a expansão da produção rural brasileira, como a cobrança do Adicional de Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) e das alíquotas cobradas na aquisição de matérias-primas vindas de fora do Mercosul. 

“Não temos como segurar os preços, mas podemos aperfeiçoar os desembolsos da atividade rural”, afirmou Martins, durante audiência pública que discutiu a crise mundial de preços dos alimentos. Ele cobrou, também, a aprovação de novas variedades de transgênicos, o aumento da concorrência no mercado de fertilizantes e a garantia de fontes de recursos para programas de defesa sanitária. Defendeu, ainda, soluções para a conclusão da Rodada Doha e a consolidação de acordos bilaterais e multilaterais para que o Brasil tenha mais acesso a outros mercados, além do fim de subsídios praticados por outros países, prejudicando os produtos brasileiros.

Segundo o representante da CNA, “no longo prazo, estas iniciativas garantiriam o aumento da produção e da oferta e a margem de lucro do produtor”. Ele atribuiu a elevação do preço dos alimentos observada este ano a uma série de fatores, como a escalada do preço dos fertilizantes, de 170% de janeiro de 2007 até este mês, do valor pago pelo barril de petróleo, da prática de subsídios agrícolas e adversidades climáticas. No entanto, ponderou que os patamares de preços observados no início deste ano não se repetirão. “Também não veremos preços inferiores à média registrada em anos anteriores”, acrescentou.

Na avaliação da CNA, a produção de etanol não foi o fator principal para a alta dos alimentos. Segundo Marcelo Martins, apesar das afirmações de que o etanol nos Estados Unidos, fabricado a partir do milho, teria ocasionado a redução da oferta do grão para alimentação, este não foi o fator de maior impacto. “O etanol no mundo corresponde a 1,6% da área total produzida”, disse. No caso brasileiro, ele afirmou que o etanol, produzido a partir da cana-de-açúcar, não compete com os grãos.

Dos 6,9 milhões de hectares utilizados para a produção de cana no País, 3,5 milhões de hectares, ou 0,41% da área total do território brasileiro, são destinados à fabricação de etanol. Martins destacou que o Brasil é o único País, hoje, com capacidade de ampliar sua produção agropecuária, com cerca de 100 milhões de hectares em áreas degradadas. “Se conseguirmos utilizar tecnologia para melhorar a produção usando estas áreas, seremos grandes fornecedores de carne, leite, grãos e biocombustíveis sem precisar invadir áreas de proteção ambiental”, frisou.

Segundo dados apresentados pelo coordenador geral de Cereais e Culturas Anuais do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), Sílvio Farnese, arroz, trigo, milho e soja tiveram aumentos dos preços internacionais superiores a 100%, de janeiro de 2006 a setembro deste ano. Já a demanda mundial por alimentos, de 2000 a 2008, foi de 15,1 bilhões de toneladas, enquanto a quantidade produzida totalizou 14,9 bilhões, gerando um déficit de mais de 200 milhões de toneladas. No Brasil, no entanto, no mesmo período, houve um superávit de 160 milhões de toneladas. Segundo Marcelo Martins, embora não há expectativa de queda ou estabilização da demanda mundial por alimentos no curto prazo, pois a população mundial deverá crescer em torno de um bilhão de habitantes até 2025, quando chegará a 7,4 bilhões de pessoas.

 

Fonte: CNA