1 de abril de 2013

Uma equação infalível



Kátia Abreu*
Sábado, 30/03/13

No Brasil dos anos 1970, a autossuficiência na produção de alimentos ainda estava muito distante da realidade. Éramos um grande importador, e o brasileiro gastava, em média, 48% de sua renda com alimentação.

Vivíamos constantes crises de abastecimento, importávamos grãos, carnes e leite. O café era o grande pilar da balança comercial brasileira. Manteve-se assim até a crise do petróleo, que, em 1973, derrubou seu consumo em todo o mundo, provocando um déficit de mais de US$ 1 bilhão em nossa magra balança comercial.

Gastando muito com petróleo e com a importação de alimentos, não havia como imaginar o Brasil exportador de hoje. Perseguíamos tão somente a autossuficiência.

Nesse contexto de crise e sob a inspiração de brasileiros visionários, surgiu a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. Eliseu Alves concebeu a Embrapa, que foi fortalecida e ampliada nos anos seguintes pelo então ministro da Agricultura, Alysson Paulinelli.

Aliou-se vontade política à inovação. Uma equação infalível, que fez reduzir o gasto médio do brasileiro com as refeições de cada dia a menos de 20% de sua renda.

Até o surgimento da Embrapa, o Brasil praticava nos trópicos uma agricultura importada das regiões temperadas, dependente de tecnologias que não foram concebidas para as nossas condições naturais. Toda a agricultura relevante do mundo situava-se fora da região dos trópicos, na América do Norte, na Europa e na Argentina.

Não havia, ainda, exemplo de agricultura tropical, nem se acreditava muito que isso fosse realmente possível. As próprias políticas governamentais, orientadas exclusivamente para a industrialização e a substituição de importações industriais, traziam implícito o conformismo com a inferioridade de nossa agricultura.

Em pouco tempo, fizemos nossa revolução verde, conquistando o cerrado, e o Brasil tornou-se o terceiro produtor agrícola do mundo e o segundo em exportações.

E não é simplificar as coisas dizer que essa nova história começou com a Embrapa. Foi essa instituição pública genuinamente brasileira que liderou a invenção de uma agricultura com identidade própria: a primeira agricultura tropical do mundo, moderna, eficiente e ambientalmente sustentável.

Toda essa aventura no caminho do conhecimento voltado para o uso na produção foi obra de brasileiros que fecharam os ouvidos para os gritos da política e para o ceticismo dos que sempre subestimaram nossa capacidade de resolver problemas. A Embrapa provou algumas coisas, e a primeira delas é que a excelência na educação sempre dá frutos.

Ela buscou profissionais em universidades rurais, já na época um modelo diferenciado de ensino e pesquisa, no padrão das universidades americanas. E investiu na profissionalização desses brasileiros, mostrando que nenhum país pode se desenvolver sem pesquisa e inovação próprias, patrocinadas pelo Estado.

Por último, provou que o Brasil, quando acredita e quer, é capaz de grandes feitos. Quando vejo a Embrapa e tudo o que ela fez, é como se estivesse vendo, refletida num espelho, a imagem do Brasil que podemos ser.

Mas o tempo passa e o mundo não para. Os saltos da ciência e as novas possibilidades tecnológicas, criadas pelos avanços no conhecimento científico, chamam a Embrapa a um novo começo.

Estamos chegando à fronteira da tecnologia existente e precisamos ocupar um novo espaço, o da biotecnologia moderna, com as técnicas da transgenia e da nanotecnologia.

Com tudo o que aprendeu com o seu passado, a Embrapa certamente vai saber andar no futuro. Essa é minha homenagem pelos 40 anos dessa instituição.

Obrigada por tudo, Embrapa. Conte sempre comigo, Embrapa.

*Kátia Abreu é senadora (PSD-TO) e a principal líder da bancada ruralista no Congresso. Formada em psicologia, preside a CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Escreve aos sábados no caderno 'Mercado'.

Fonte: Folha de S. Paulo